A insustentável beleza da informalidade



Aproximadamente 70% da população mundial vive em zonas de construção informal. No entanto, este é um termo difícil de caracterizar, não existe uma única categoria: são favelas, musseques, urbanizações espontâneas, cidades planeadas mas construídas desobedecendo às “regras” do planeamento. Estes modos de fazer cidade não são exclusivos dos países do Sul: até no Norte da Europa é comum o uso informal dos espaços urbanos. Em Portugal, assistimos sobretudo a duas situações: a Sul, os bairros informais estão associados aos fluxos de imigração e da urgência de habitação; a Norte, a informalidade está associada sobretudo às ocupações de génese ilegal resultantes do parcelamento de terrenos rurais ou de logradouros urbanos.

Ao definir o projecto curatorial do jornal Homeland, representação portuguesa na 14ª exposição internacional de arquitectura de Veneza, foi clara a necessidade de abordar este tema, fundamental no momento que a profissão atravessa. Convidei duas equipas que têm orientado as suas práticas para contextos informais.

Como editores, o ateliermob apresentou em cada uma das três edições de Homeland um enquadramento e mapeamento nacional à volta desta problemática. Revindicaram as áreas informais como um campo legítimo para o trabalho dos arquitectos, em vez de serem abordados unicamente por sociólogos, antropólogos e geógrafos. Aqui as ferramentas de desenho são políticas, de capacidade de envolvimento, de participação, de mediação, de percepção das comunidades.

Estas são as ferramentas que seriam usadas por Paulo Moreira, com uma proposta prática para a requalificação do Monte Xisto. O seu projecto demonstra uma grande atenção para o que encontrou em Monte Xisto, uma grande sensibilidade para o que existe naquele território. Após as experiências certamente marcantes em ateliers internacionais de renome, como Herzog & de Meuron, Paulo Moreira demonstra um interesse pouco comum nos arquitectos em aprender com as áreas informais. É com essa aprendizagem que manobra de forma exímia os processos de projecto, que se concretizam numa solução participada e sensível para um problema real e demasiado sério. Por sua sugestão, a proposta arquitectónica é complementada pelos olhares de 3 fotógrafos, Valter Vinagre, Nelson D’Aires e Paulo Pimenta, igualmente atentos à matriz urbana, material e social do Monte Xisto.

Esperemos que esta seja de facto a “Primeira Pedra” para a futura implementação do projecto. Nem sempre o poder político se tem dado bem com a informalidade, pois ela é orgânica, mutável, não calculável, não parametrizável. Por vezes, essa leveza da informalidade é insustentável. Sem peso e sem forma não há controlo, e erradicar torna-se mais fácil do que transformar. Não tem sido essa a atitude da Câmara Municipal de Matosinhos, que tem tido uma actuação positiva em áreas informais. Esperemos que essa atitude permita transformar esta leveza da informalidade no futuro sustentável para todos no Monte Xisto.